“Demasiado preta para ser uma rainha do Carnaval”

Desde o início dos anos 90 que a rede Globo instituiu a Globeleza, a cobertura do Carnaval carioca, adotando uma sambista enquanto símbolo do carnaval nesse ano. A sambista ocupa os ecrãs, com o corpo ricamente pintado e decorado, na melhor tradição brasileira. Contudo, a polêmica em torno desse “cargo” não pára de aumentar e o caso ganhou dimensão internacional depois de um documentário do Guardian. O jornal inglês falou com a sambista Nayara Justino, que deixou de ser “Globeleza” por uma questão de racismo. Depois de ser escolhida, Nayara recebeu um grande número de críticas racistas através da internet.

O sucedido com Nayara Justino veio rio-carnival-1084649_960_720recordar o quanto o racismo é ainda um problema na sociedade brasileira. Ao contrário dos Estados Unidos, onde é vivido como um confronto entre duas raças que muitas vezes não se misturam, no Brasil a segregação é mais sutil e inconsciente.

Se por um lado a mistura e a miscigenação são bem maiores que nos Estados Unidos (onde praticamente não existem mulatos nem descendentes de mistura racial), por outro a ideia de que o “lugar do preto é na sanzala” está muito firme no inconsciente de muitos brasileiros, independentemente de sua cor. Muitas pessoas pretas se juntaram ao coro de críticas a Nayara Justino por se intrometer num lugar que não seria o seu.

Sexismo e racismo?

Algumas opiniões vão mais longe e podem sugerir como serão os debates sobre este tema no futuro. Para estas opiniões, a escolha de uma mulher mulata para representar a folia do Carnaval é, em si mesmo, um ato racista, uma vez que também não se considera que uma mulher branca pudesse ocupar o “cargo”. Será todo este conceito uma manifestação de racismo, como se dançar fosse apenas “coisa de mulata”, e de sexismo, se tratando de uma exploração da sensualidade feminina? O tempo dirá se esta corrente de opinião virá a ganhar força, desafiando ainda mais as noções antigas em torno do gênero e da cor da pele.